terça-feira, 17 de novembro de 2009

Amor, discussão nova


O que é amor?
(Fonte: Portal Brasileiro da Filosofia)


Por: Marta Nussbaum (Universidade de Chicago)

Entende-se habitualmente que o amor é uma poderosa emoção que implica uma intensa ligação a um objeto e uma grande valorização desse objeto. Em algumas acepções, contudo, o amor não implica, de todo, emoção, mas somente um interesse ativo no bem-estar do objeto. Noutras situações o amor é essencialmente uma relação que implica permutação e reciprocidade, mais propriamente que uma emoção.


Além disso, há muitas variedades de amor, incluindo o amor erótico-romântico, o amor da amizade e o amor filantrópico. Culturas diferentes também admitem diferentes tipos de amor. O amor tem, igualmente, uma arqueologia complicada: porque tem fortes conexões com experiências de afeto precoces, pode existir na personalidade a diferentes níveis de profundidade e nitidez, apresentando problemas específicos para o autoconhecimento. É um erro tentar fazer uma descrição excessivamente uniformizada de um tão complexo conjunto de fenômenos.

O amor tem sido entendido por muitos filósofos como fonte de grande riqueza e energia na vida humana. Mas mesmo aqueles que exaltam a sua contribuição têm-no visto como uma potencial ameaça à vida virtuosa. Por esta razão, os filósofos na tradição ocidental têm-se preocupado em apresentar descrições da reforma ou "elevação" do amor, com vista a demonstrar que há formas de conservar a energia e a beleza desta paixão, ao mesmo tempo que se eliminam as suas más consequências.

1. Amor: emoção, relação, ação

Entende-se frequentemente que o amor é uma emoção poderosa. Parece implicar quer uma intensa ligação a um objeto quer uma elevada valorização do objeto. Muitas vezes, embora nem sempre, o objeto é visto como algo de que alguém necessita na sua própria vida; por esta razão, o amor é muitas vezes relacionado com projetos de posse ou incorporação, e com emoções ciumentas para com o objeto visto como independente e capaz de frustrar as necessidades do amante. Espinosa (1677) sustentou que o amor implica ter consciência do objeto enquanto algo que suscita o próprio bem-estar de alguém. Visto que todos os objetos particulares são, também, em virtude da sua separação do eu, capazes de frustrar o bem-estar, todo o amor, concluiu Espinosa, é essencialmente ambivalente, misturado com raiva e mesmo ódio.


Pode-se, contudo, defender que o amor é uma emoção ou emoções, enquanto se insiste que estas emoções podem ser isentas de ciúme e desejo possessivo. Assim, Platão, no Fedro, concebe o amor como uma poderosa reação à beleza e ao mérito, que está estreitamente ligada, nas pessoas virtuosas, à veneração e ao temor; deste modo, respeita a separação do objecto e procura o seu bem. Estas considerações descrevem diferentes experiências, podendo ambas ser reais (como Platão, ao contrário de Espinosa, reconheceu).

O amor não é apenas uma emoção: pode também ser um tipo de relação. Aristóteles, na Ética a Nicómaco, insistiu que o amor (da amizade) implica sempre conhecimento mútuo e benevolência recíproca. Embora qualquer descrição do amor necessite de abrir caminho para amores que não são correspondidos, ou que são dirigidos para objetos que não podem retribuir (como bebês ou alguns animais) ou que não podem fazê-lo tão claramente (como Deus), a insistência de Aristóteles na interação e na reciprocidade fornece um ingrediente importante para uma descrição normativa de muitos tipos de amor humano, quer da amizade quer romântico-erótico. Com efeito, a recusa em conceber o amor em termos relacionais é uma deficiência central em muitos casos de amor erótico, nos quais o objeto amado é, de fato, tratado como um objeto a ser possuído e imobilizado. Embora Proust pensasse que tais desígnios eram essenciais ao amor erótico, pode-se duvidar disto.

Alguns amores podem não envolver, de modo algum, uma emoção forte. Kant (1797) insistiu que o "amor patológico" (amor que envolve uma emoção passiva) era inferior ao "amor prático", uma ligação ativa ao bem dos outros, incluindo emoções de respeito e preocupação.


Quer concordemos quer não, devíamos reconhecer que este comprometimento prático ativo é um tipo de amor: o amor filantrópico, por exemplo, pode ser melhor entendido desta forma. Os estóicos gregos acreditavam que mesmo o amor erótico podia ser repensado de uma forma que o tornasse compatível com a apatheia, impassibilidade, própria dos doutos. Seria um entusiasmo ativo acerca do bem-estar do objeto, sem as correntes da passividade angustiante que habitualmente caracteriza a ligação erótica.

2. Tipos de amor

O inglês, como o latim, tem apenas um único vocábulo para uma extensa família de experiências diferentes. Outras línguas, como o grego antigo e o japonês moderno, tornam as diferenças inequívocas desde o início através do uso de vocábulos diferentes. Mas, mesmo em inglês e latim, podemos distinguir diferentes espécies de amor. O amor erótico-romântico está estreitamente ligado ao desejo sexual, enquanto o amor da amizade aparentemente não está. Considera-se frequentemente na era moderna que o amor dos pais pelos filhos e dos filhos pelos pais tem uma dimensão erótica; mas esta não era a perspectiva da maioria das culturas mais primitivas, nem é verosímil ser verdadeira em culturas onde os pais em boa situação financeira raramente viam os seus filhos. A cultura grega antiga considerou que o eros era sexual, preocupado com a posse e potencialmente destrutivo; a philia, que podia prevalecer quer entre amigos quer entre parentes, era vista como mútua e recíproca, preocupada com o bem-estar, e uma força cultural positiva. A agape cristã é distinta de ambos estes amores pelo seu carácter essencialmente altruísta; o seu paradigma é a dádiva que Cristo fez da sua vida para a redenção da humanidade pecadora.

Podemos também classificar os amores pelo seu tipo de objeto. Nós amamos outras pessoas, e é razoável esperar que estes amores envolverão alguma reciprocidade e mutualidade. Os amores das pessoas pelos animais podem ser muito intensos; variam muito no tipo de reciprocidade que oferecem. As pessoas também amam intensamente objetos inanimados, como obras de arte e beleza natural. Tais amores não podem ser recíprocos. O amor também pode ter como objeto uma abstração moral, como a justiça social ou o bem da humanidade. No modelo estóico-kantiano este tipo de amor é especialmente bem explicado, como algo que envolve um comprometimento ativo mais do que uma emoção.

O amor de Deus ou dos deuses tem sido entendido de muitas formas diferentes. Os estóicos pensavam que amar Deus era amar o propósito racional que dá vida ao universo; tal amor era melhor entendido como uma forma de pensamento ativo, sem qualquer receptividade emocional. O amor intellectualis dei, de Espinosa, segue este paradigma. Santo Agostinho, criticando a apatheia estóica, insistiu que uma forma de amor fortemente emocional, misturado com temor, culpa e dor, é mais apropriado a uma vida cristã. Muitos pensadores cristãos seguem a sua influência. As concepções judaicas do amor de Deus tendem a dar ênfase à ação correta, quer ritual, quer ética. O moderno pensamento religioso continua estes debates.

3. Diferença cultural

A maioria das sociedades abrange tipos e concepções de amor muito diferentes. Mas as diferenças multiculturais também complicam a análise. As sociedades diferem


a) no comportamento que consideram adequado numa relação de amor; assim, os amantes americanos modernos comportam-se publicamente de formas que teriam sido inconcebíveis na Índia do séc. XIX. A diferença também está presente


b) nas regras que as sociedades ensinam a respeito dos objetos de amor adequados; assim, a Atenas do séc. V a. C. ensinava aos homens jovens que se esperava que eles tivessem fortes desejos eróticos, quer por homens, quer por mulheres; muitas culturas modernas não transmitem esta ideia. As sociedades também diferem


c) nas suas avaliações normativas das diferentes espécies do amor em si - discordando, por exemplo, sobre se o amor erótico é nobre ou indecoroso, bom ou mau. Pode-se esperar que todas estas diferenças moldem não somente os conceitos mas também a própria experiência do amor.

De uma forma mais interessante, as sociedades também diferem


d) na taxinomia exata dos tipos de amor que a sua linguagem e forma de vida exibem e perpetuam. Por exemplo, o grego antigo eros é imaginado como um terrível poder que domina a personalidade e faz que ela se fixe num objeto com uma intensidade irresistível. O seu objetivo é supostamente a posse do objeto. O amor palaciano medieval, em contraste, põe a ênfase na pureza ideal e afastamento do seu objeto e associa o amor a uma terna e cortês atenção para com esse objeto. Aqueles que, hoje em dia, perderam as crenças e as formas de vida que fundamentaram o amor palaciano não podem ter experiência daquela paixão exatamente.

As diferenças na taxinomia são muitas vezes descobertas e depois modeladas pela terminologia. Assim, o fato de os gregos antigos distinguirem o eros da philia e os romanos usarem apenas o vocábulo amor provavelmente moldou o pensamento e a experiência pelo menos até determinado ponto, embora os romanos distinguissem claramente diferentes variedades de amor (analogamente no mundo moderno, o fato de o japonês ter várias palavras distintas para aquilo que o inglês chama "amor" provavelmente revela alguma diferença real na experiência, ainda que estas diferenças não devam ser sobrestimadas).


No mundo moderno, o entendimento da diferença cultural é dificultado pelo contato intercultural e pela tradução de textos formativos: assim, o fato de o japonês ai ser usado para traduzir o bíblico agape exprime, sem dúvida, a evolução daquele conceito enquanto aplicado à experiência.

4. Amor e desenvolvimento humano

As pessoas começam a ter emoções fortes antes de poderem mover-se ou falar. A combinação da maturidade cognitiva com o desamparo físico de um bebê humano dá origem a uma complexa e ambivalente vida emocional, à medida que vê que muitos objetos de que necessita para conforto e sobrevivência são também distintos e insubmissos. A perspicaz conjectura de Espinosa acerca da relação entre amor e cólera tem, presentemente, recebido muitas vezes confirmação clínica e experimental. Uma tarefa do desenvolvimento humano é gerir e até mesmo superar esta ambivalência, a qual existirá em muitas formas diferentes em diferentes vidas, à medida que o amor é poderosamente moldado pela identidade individual dos objetos de afeto precoces.

As experiências precoces que moldam o padrão dos amores de uma pessoa são imperfeitamente recordadas, se o são de todo; mesmo traduzi-las para palavras é modificá-las. E, não obstante, parece provável que elas ensombram as experiências mais tardias de uma pessoa. Proust alvitrou de forma plausível que quando um adulto abraça um amante, ele ou ela estão, ao mesmo tempo, a abraçar a sombra de um objeto mais primitivo. Deste modo, Albertine é também a mãe cujo beijo de boa noite o rapazinho tão ansiosamente esperou. E, contudo, é difícil compreender estas facetas de si mesmo; e na medida em que se consegue fazê-lo, altera o passado tornando-o preciso e articulado. Portanto, é provável que o autoconhecimento das pessoas no amor seja muito imperfeito.

5. Amor e bem humano: a elevação do amor

O amor é geralmente reconhecido como uma fonte de beleza e apreço na vida. Por esta razão, nenhum filósofo propôs a sua completa remoção. Mas considera-se também que acarreta várias dificuldades para a pessoa que aspira a uma vida reta e virtuosa. Uma preocupação é que o amor implica parcialidade: concentrando-se intensamente no apreço de um único objeto, a pessoa perde de vista as afirmações legítimas de outros objetos e metas. A segunda preocupação é com a excessiva indigência: permitindo a um único objeto tornar-se central para a sua vida, os amantes colocam-se a si próprios à mercê de acontecimentos que não podem controlar, sacrificando, deste modo, a sua dignidade e poder. Finalmente, em parte por causa desta passividade, o amor está muitas vezes ligado à raiva e vingança, quer contra o objeto amado quer contra um rival, ou ambos. Uma sociedade que quer reduzir a raiva e a violência pode ter, portanto, razões para desencorajar o amor.

Os filósofos na tradição ocidental têm, por conseguinte, estado preocupados com o projeto de construir uma reforma ou "elevação" do amor que nos permitiria conservar o seu mistério e beleza embora depurando os seus excessos deformadores. Para Diotima, no Banquete de Platão, a elevação implica centralmente a ideia de um objeto abstrato. Desde que alguém perceba que o objeto real do seu amor não é um corpo nem mesmo uma pessoa completa, mas a beleza que está alojada naquele corpo ou pessoa, então esse alguém pode começar um processo de reforma, comparado à subida de uma escada, através do qual, afinal, chega a amar toda a beleza no universo e, mais do que isso, a contemplar a forma imortal da própria beleza em toda a sua harmonia. Desta forma, os amantes tornam-se invulneráveis às vicissitudes da vida: o objeto do seu amor nunca os trairá ou desapontará.

Os proponentes cristãos da "escada" do amor tendem a criticar o plano de Platão pelo seu objetivo de auto-suficiência pessoal. A modéstia genuína exige que se mantenha uma constante consciência da própria imperfeição e miséria. Os autores cristãos também se esforçam por manter o amor de indivíduos específicos como parte do amor purificado.

Espinosa regressou à proposta platônica para a reforma contemplativa do amor: concentrando-se na independência da mente de contingências externas, em última instância uma pessoa vem a amar a estrutura determinista do universo inteiro e a mente é libertada da passividade e ambivalência que caracterizam os afetos humanos.

Uma notável interpretação moderna da tradição platônica pode ser encontrada em À la Recherche du Temps Perdu (À Procura do Tempo Perdido) (1914-27), de Proust, que afirma que cada um dos amores de um escritor é como um degrau numa escada que o conduz a formas superiores, nas quais, sozinho, o seu intelecto encontra conforto e deleite. Usando o próprio passado de dor e vulnerabilidade como matéria-prima para um trabalho criativo, supera-se a vulnerabilidade e alcança-se uma espécie de independência do tempo e da morte.

Nenhum destes reformadores gosta muito dos seres humanos reais. Por essa razão, esta tradição dá origem a uma contratradição que tenta restituir aos seres humanos uma grande aceitação dos seus amores como eles são, vendo o próprio interesse na elevação como uma doença que necessita de cura. Muita desta tradição subsiste fora da filosofia. Um exemplo extraordinário é o Ulisses (1922), de Joyce, que divertidamente vira de pernas para o ar a escada de Diotima, sugerindo que é somente na emoção inconstante e imperfeita que o amor verdadeiro pode ser encontrado.


Ao conectar o idealismo religioso ao anti-semitismo e o amor pelo corpo, de Bloom, a um amor filantrópico geral, Joyce sugere, também, que a tradição de elevação pode ser a causa dos ódios sociais, em vez de a sua cura.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Eu sou um outro você!

Sá de Miranda teria escrito:

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

"Comigo me desavim"
Sá de Miranda. In Poesias Escolhidas - Introdução, seleção e crítica de José V. de Pina Martins
Editorial Verbo, Lisboa, 1969



Na filosofia do olhar, base de boa parte - quiçá a maior parte - da filosofia ocidental dos últimos 25 séculos, se estabeleceu como meio e móvel de todo conhecimento humano. Entender o mundo desde nosso ser primitivo, é, no mínimo lançar olhos para ele. É também experienciá-lo, tocá-lo... Em primeira análise, é (simplesmente) viver nele!

É certo concluir que ao manejar o fogo ou lascar a pedra para usá-la como ferramenta, o homem dominou certas tecnologias; Adquiriu certas experiências do meio.

Pois é: "olhar" é pensar (mesmo abstratamente), é fazer uso dos outros sentidos, é buscar para si, etc.

Lembrei, ao escrever as definições acima, da comum expressão: "Me veja 6 pãezinhos". Oras, a pessoa não está solicitando ao vendedor que "olhe" para 6 pães! Este "ver" tem outro sentido. Outro exemplo: Quando alguém diz "Já estou vendo onde isso vai dar" reconhece-se outra expressão que denota um exercício intelectual de modo a prever consequências de uma situação.

Já quando usamos a palavra "idéia", que é representada por uma lâmpada que por sua vez é associada à luz (Foto: Sandro Maduell) é outra referência à visão, pois não é possível enxergarmos na total escuridão. "Iluminismo", "A luz no fim do túnel", a auréola dos santos e outros símbolos, expressões e teorias, reforçam e evidenciam essa referência.

O sentido da visão, propriamente, não poderia deixar de receber a importância primeira - dentre os outros sentidos - no processo do conhecimento.

E o que tudo isso tem a ver com o título da mensagem? Precisarei fazer uma "ponte" entre os assuntos, mas para saber mais, sugiro ler sobre Cosmologia, Mitologia, que são explicações a partir da visão (real, e por vezes, abstrata) de como o Mundo seria organizado. Hoje, esse papel cabe mais a Ciência. É ela, acreditam muitos, quem "vê" o Mundo!

Acontece que ao ver o Mundo, veremos que, dentre outras coisas e seres, outros humanos o habitam. Eles são "os outros" e quem olha, "eu".

Na teoria sócio cultual de Lev Seminovitch Vigotsky, se pressupõe que a aprendizagem e o desenvolvimento humano ocorre nas interações intersubjetivas. Vigotsky foi pesquisador na área da Educação e tendo relevado a perspectiva da psicologia e, à medida que explicou a constituição histórico-social do desenvolvimento psicológico humano, insere esta constituição histórico-social no processo de apropriação da cultura mediante a comunicação com outras pessoas. "O outro que sou eu e o eu que é o outro". São identidades construídas pelo preço da destruição, singularidades emitidas pela gloria da pluralidade, formas impressas em função das disformes e multiformes apresentadas.

Basicamente, é enxergando (convivendo, articulando ou "trocando idéias") o outro que aprendemos sobre o que nos cerca e a nós mesmos. Morrem (daí a palavra destruição) idéias (conceitos) que nos pareciam certos mas mostraram-se falsos e nascem outros, agora estabelecidos mutuamente (com "o outro", daí a palavra pluralidade).

E esse exercício revela algo que parecerá banal, mas comumente se abstrai ou esquece: o Mundo que se deseja conhecer, não é só o externo! Se "eu" vivo no Mundo, apenas conhecendo "eu" e o externo ("outro") é que, de fato, estarei dando conta do todo. O Mundo sem "eu", não é o Mundo real!

Magritte, pintor surrealista, provoca em "Reproduction Interdite", de 1937, a reconhecer que o "eu" não pode se conhecer completamente a partir do olhar de si, pois sua conclusão será sempre incompleta, subjetiva. Mais provocador ainda é pensar que o espelho, um objeto que permite refletir a imagem, portanto "um outro", nega também ao "eu" sua consciência.

Neste caso, não se poderia cogitar se o conhecimento de si não seria um fato, mas um conflito ad infinitum? Ou seja, não seria um movimento contínuo do "eu" em relação com o Mundo?

Sartre escreveu em seu famoso "O ser e o nada":


"...: o homem se define em relação ao mundo e em relação a mim próprio; ele é este objeto do mundo que determina um escoamento interno do universo, uma hemorragia interna; ele é o sujeito que se descobre a mim nesta fuga de mim mesmo em direção à objetivação."

O olhar é, primeiramente, um intermediário que me remete a mim mesmo. Basta que o outrem me olhe para que eu sejao que sou; ele me constitui através do olhar. Um olhar que me objetiva (me torna objeto) e faz que eu deixe de ser possuído pelo mundo; o fundamento da relação com o outrem é o conflito. Olhando-me o outro me julga, faz de mim objeto de seu pensamento. Eu dependo dele. Passo a estar em perigo e esse perigo é a estrutura permanente de meu ser para o outrem.

De certa forma, eu poderia gozar dessa escravidão sob o olhar do outrem, pois se perco minha liberdade, perco, consequentemente, minhas responsabilidades, porém, isso não passa de uma ilusão, porque minha redução ao estado de objeto não me permite escapar à minha posição de sujeito e, ainda, solicita esta posição, pois da mesma forma que sou olhado, também olho. O outro me obriga a me ver através de seu pensamento como eu, reciprocamente, o obrigo a se ver através do meu. Eu dependo do outro que depende de mim.

A Metamorfose de Narciso, de Dalí, denuncia a transformação do ser no tempo. Algo que vai se revelando, ainda que tal revelação nunca se dê por completo. Nota-se o "ovo" e a germinação da flor, simbolizando o início por uma mão (referência a Criação do Homem, - afresco na Capela Sistina - por Migelângelo?). Fato é que Narciso, curiosamente representa o egoísmo, alguém que só deseja ver a si e por este "auto-engano", perde-se.

Trechos de referências:
VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. SP, Martins Fontes, 1988
SARTRE, J. P. O ser e o nada. 2003

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Conceito não é aquilo que você sente!

Amor: Palavra de quatro letras. Substantivo masculino.
Que é esta palavra? Que é palavra senão conceito?
Quando alguém se depara com a questão "O que é amor?", no que pensa? Será que todas as vezes na vida em que ela se puser esta questão, resultará a mesma resposta?
E, ainda, supondo que sim (que a mesma frase seja uma resposta possível), a interpretação desta frase será a mesma?
Afinal, o que é amor?
Será que amor inclui amizade, ou seja, será que um sentimento pode estar contido em outro? Será que entre "amor" e "amizade" há pontos comuns ou não? Seriam sensações inteiramente diferentes?

Finalmente: Amor existe?
Segundo o dicionário Aurélio, sim! Na primeira edição (décima terceira impressão) do Minidicionário, este atesta o seguinte:
AMOR (sm). 1. Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem. 2. Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro, ou a uma coisa. 3. Inclinação ditada por laços de família. 4. Inclinação sexual forte por pessoa doutro sexo. 5. Afeição,amizade, simpatia. 6. O objeto do amor (1 a 5).

Também o Michaelis informa um conjunto de definições para o amor. Trata-se da primeira edição (décima quarta impressão):
AMOR (lat amore) sm. 1.Grande afeição de uma pessoa por outra. 2. Afeição, grande amizade, ligação espiritual. 3. Carinho, simpatia. 4. O ser amado. Antôn (acepções 1, 2 e 3); Ódio.
Exceto pelo Aurélio ter se referido no item 4 de forma limitada, excludente e portanto, preconceituosa (um conceito preconceituoso é de lascar!), entendo que não é possível dar conta da definição de amor porque amor não é um conceito!
É preciso considerar minimamente que para se aproximar da idéia de amor é preciso lançar mão de um CONJUNTO de conceitos.

Obviamente, as descrições de dois dicionários não devem ser as únicas fontes possíveis. Certamente que há muitos outros que se somariam no intuito de explicar o termo.
Vasculhando na NET, encontrei três bem conhecidos:Luís Vaz de Camões é repetido intermináveis vezes quando diz que:

"Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?"

Dante Alighieri teria afirmado que o amor é sua essência na vida; Uma dimensão divina! Em sua Divina Comédia, põe na boca de Beatriz, quando esta pede ao poeta latino Virgílio que vá socorrer Dante, perdido no Inferno:

"Amor me move: Só por ele eu falo" (DANTE ALIGHIERI, 1984, p. 114)
E também Paulo de Tarso, na carta primeira destinada aos Coríntios, teria escrito:

"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine;
E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria;
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria;
O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece; Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta;
O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado! Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor."
Na carta de Paulo, alguns pontos interessantes. Dentre estes, me chama atenção quando ele reforça a idéia de que por conta de nossa limitação, o que conseguimos por hora fazer é profetizar o amor, ou seja, tentamos dar conta de responder o que é o amor, mas há a consciência de que esta resposta é inacabada, imprecisa.

Ainda diz que só poderemos entender que é amor quando nossa consciência estiver preparada, evoluído (?), pois ainda somos "meninos"; Nosso pensar é imaturo.Assim só identificamos amor de forma imagética, por analogia (ele usa o termo "por espelho") equando definimos amor, na verdade estamos apenas nos aproximando de sua idéia; Só é possível formar uma noção e não apreender verdadeiramente. Seria o "enigma" o qual se referiu.
Não se trata de afirmar que cada pessoa deve criar seu próprio conceito de amor. Se pareceu isso, pareceu errado! Trata-se de perceber que se juntarmos todas as definições de amor, por todos os recursos disponíveis, ainda assim, teremos uma aproximação do que seja o amor.
O amor, assim como outros termos bem mais banais que conhecemos, ultrapassa a capacidade da linguagem; Não é possível, portanto, ensiná-lo ou aprendê-lo - a não ser miseravelmente!
Ao dizer sobre o amor, estamos invariavelmente errando, pois não poderíamos dizer sobre o que não sabemos. E se não podemos dizer, não podemos pensá-lo verdadeiramente! Discorda? Então tente!
De amor, não sabemos, mas podemos senti-lo.
Amizade, sexo, lealdade, desejo... Podem ser só palavras; Ou não! Sinto que importante é amar porque, vai ver, aquelas palavras já estão contempladas no amor. Por que não? O amor é INDESCRITÍVEL!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O significado mítico da memória

Por Flávio Pereira Camargo

Doutorando em Estudos Literários na Universidade Federal de Goiás e Universidade de Brasília. Professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Goiás Unidade Universitária de Campos Belos.
E-mail:camargolitera@gmail.com

Trecho retirado de REVELLI (Revista de Educação, Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas v.1, n. 1, março de 2009)

Na Antigüidade greco-latina, a Memória (Mneme) era personificada pela deusa Mnemosyne, filha da Terra e do Céu, irmã de Cronos e de Oceano, que presidia a função poética e que, ao se unir com Zeus, deu a luz as Eríneas e às Musas, que cantam a gênese do mundo e dos deuses, o nascimento da humanidade, a criação primordial do Cosmos. Enfim, têm como função nomear-presentificar-gloriar tanto quanto a de deixar cair no Oblívio e assim ser encoberto pelo noturno Não-ser tudo o que não reclama a luz da Presença (TORRANO, 1992, p. 85), da força numinosa do Cantar.

A inspiração artística estava fora do artista. Era um dom divino inspirado na força numinosa do Canto das Musas. O poeta, ao ser possuído pelas Musas, tornava-se o seu intérprete e penetrava em um tempo mítico, cíclico, o tempo das origens.

De acordo com Torrano, o Canto das Musas confere ao aedo o contato com outro mundo, a possibilidade de aí entrar e de voltar dele livremente por meio da Poesia Oral, que une a recitação à improvisação. E é por meio dessa recitação que o homem entra em contato com o Saber, com a Presença Divina e estabelece uma comunhão com o Divino. Trata-se da palavra enquanto alethéia, verdade, revelação. A palavra reveladora contém a própria essência do objeto nomeado, cria uma aparência, uma realidade, fechada nela mesma, que leva a uma fusão entre o nome e o objeto nomeado.

Em Homero, o aedo fixa as genealogias dos homens e dos deuses, define a proeminência dos povos, das famílias reais, dentre outros, ao passo que em Hesíodo a força numinosa do Canto das Musas faz surgir a ordem das linhagens divinas e, sobremodo, a ordem mesma instituída e mantida por Zeus. As origens tomam um sentido propriamente religioso, tendo o caráter de uma
mensagem sagrada. O Canto das Musas narra, por meio da voz do poeta, a gênese do mundo, uma realidade primordial, ao entregar o segredo das origens e revelar um mistério: o mistério da
genealogia dos deuses e do Cosmos.

Há uma delimitação tênue entre a memória (Mneme) e a recordação (anámnesis): A anámnesis, a recordação do passado sugere o esquecimento do tempo presente e um retorno a um tempo divino, o tempo das origens. A memória representa, desse modo, a fonte de saber em geral, da onisciência, instrumento de uma liberação em relação ao tempo. Esquecimento e memória formam, pois, um par de forças religiosas complementares.

As águas do rio Lethe representam, na Antigüidade, o Esquecimento e são, inicialmente, águas de morte, que fazem parte integrante do reino da Morte, do Hades. Nas narrativas escatológicas, que descrevem o périplo das almas no reino dos mortos, as almas deveriam beber das águas do rio Lethe para se esquecerem de sua vida terrestre e, assim, adentrar no mundo dos mortos.

Do não-perdão

O psicólogo clínico Worthington faz uma análise interessante de todas as emoções que se relacionam com o que ele chama de “não perdoar”: raiva, medo, ódio, injúria, vingança. “Não perdoar” é uma emoção complexa que inicia com um medo condicionado e continua com a manipulação cognoscitiva do contínuo pensar sobre o evento original que produz o medo. A lembrança contínua (o replay cognoscitivo) produz respostas imediatas nos músculos do rosto, nos músculos do esqueleto, nas vísceras, hormônios, no sistema nervoso e, finalmente, no fluxo de sentimentos.

O “não perdoar” – segundo a psicanalista Anna Freud – consiste num mecanismo de defesa que faz que a vítima procure o controle, “assumindo a conduta violenta ou ameaçadora do agressor e transformando-se ele mesmo de ameaçado em ameaçador”. É uma forma de ganhar autodomínio e dignidade.

Segundo o psiquiatra Fitzgibbons, a injúria anda associada a um alto grau de tristeza, porque expressa o fracasso dos outros para satisfazer as necessidades básicas de amor, o apreço e a justiça. Há três mecanismos básicos por meio dos quais as pessoas podem resistir à raiva: a negação consciente ou inconsciente, a manifestação agressiva, o perdão.

Em nossa meninice extemporânea nós nos acostumamos a negar a injúria, o aborrecimento, o agastamento e, conseqüentemente, armazenamos dentro de nós, desde pequenos, estes aspectos negativos.

O resultado natural da ofensa e do agastamento é o desejo de vingança. O desejo de vingar-se não diminui enquanto estes sentimentos não forem aceitos ou afastados. Sem uma decisão consciente de reconhecimento e abandono, a ofensa e o agastamento permanecem vivos e acumulados em nosso íntimo, podendo explodir no futuro.

O psiquiatra Aaron Beek afirma que os pensamentos são responsáveis pelos sentimentos. Quando as pessoas cultivam pensamentos de raiva e ódio, iguais serão seus sentimentos e também suas ações. Este cúmulo de pensamentos, normalmente, segue determinados modelos: homogeneização do outro (todos são maus), desumanização (estas não são pessoas, mas simplesmente objetos), demonização (estes inimigos são a encarnação do eixo do Mal).

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Colocar o afeto na Política

Balanço do Século XX - Paradigmas do Século XXI

Café Filosófico
Renato Janine Ribeiro

Nesta palestra Renato Janine Ribeiro ilustra a boa e a má política. Para designar a boa política comenta quatro termos: Democracia, República, Socialismo e Liberalismo. Para a má política o Racismo e o Totalitarismo. Fazendo um resgate do afeto na política, traz fatos históricos do oriente citando o Barão de Montesquieu em seus livros "Cartas Persas" e "O Espírito das Leis". Neste contexto a sedução vai desempenhar um papel político muito importante. O ocidente afirma que aqui não há capricho no governo. O governo ocidental segue as leis. O ocidente, no momento que decide ter uma política imparcial segundo o primado da lei, segundo o império dos direitos, deporta o afeto político para o oriente, e exclui o afeto da política. Isto vai deixar na política ocidental um déficit, uma dívida muito grande, pois como constata Renato Janine em sua linha de pensamento, nós não somos objetivos e imparciais, mas sim seres subjetivos e parciais.

Renato Janine Ribeiro: Professor titular de Ética e Filosofia Política na USP, tem se dedicado à análise de temas como o caráter teatral da representação política, a idéia de revolução e a cultura política brasileira. Entre suas obras destaca-se A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no Brasil (Prêmio Jabuti, 2001).

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sábado, 8 de agosto de 2009

A sua realidade numa caixa de sapatos

Fulano olhou para baixo: Tinha seus chinelos gastos de modo que não poderia continuar usando-os. Decidido a comprar novos, procurou em seus bolsos e depois pelos móveis do galpão onde morada, seus trocados.

Minutos mais tarde, todas as moedinhas foram contadas e ele, confiante, se pôs a caminho da lojinha popular perto dali.

Chegando lá, mal começou a olhar os produtos, um vendedor com cara simpática e que parecia tentar ser o menos invasivo possível, ofereceu-se para ajudar o cliente. Muito atencioso, trouxe, sem exagero, 10 cores de sapatos de 10 modelos diferentes! Todos dentro da faixa de preço que Fulano mencionara poder pagar.

E o vendedor não fez como fazem os de hoje, que sem desviarem os olhos da vitrine dizem "só tem assim". Não, ele não fez só isso: Comentou quais pares ficavam melhor, ajudou Fulano a calçar vários, deu dica de quais materiais duravam mais, ajudou no que pode.

Fulano ficou satisfeito. Apontou o par mais confortável e durável e depois de pagar, foi-se embora. Ele voltaria alí outras vezes e, se alguém perguntasse, recomendaria a tal lojinha de sapatos.


Fulano não escolheu o que queria. Ele queria chinelos novos! Acontece que ele só enxergou sapatos e se adequou à uma realidade: a da loja de sapatos.